Prof. Ingestus
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Introdução

O debate sobre financiamento no terceiro setor costuma girar em torno de acesso a recursos. No entanto, o relatório “Da transação à transformação” mostra que o problema é mais profundo: não se trata apenas de quanto dinheiro é distribuído, mas de como esse processo ocorre e quem, de fato, consegue acessar esses recursos.

A partir de dados quantitativos (doações entre 2016 e 2023) e análises qualitativas com organizações e fundações, o estudo revela padrões estruturais que impactam diretamente a capacidade de crescimento e sustentabilidade das OSCs — especialmente aquelas lideradas por grupos historicamente sub-representados.

Principais pontos do relatório

1. Base de dados robusta e consistente

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Leva menos de um minuto.

    • Análise de 627 organizações lideradas por pessoas negras

    • Comparação com 3.642 outras organizações

    • Dados históricos de doações entre 2016 e 2023

    • Complemento com pesquisas e entrevistas qualitativas


2. Organizações lideradas por pessoas negras são mais recentes

 

    • 68% foram criadas a partir de 2010, contra 41% das demais

    • Indica menor tempo de maturidade institucional

    • Impacto direto na capacidade de captação e relacionamento com financiadores


3. Distribuição geográfica concentrada

 

    • Forte presença no Sul (até 48% das organizações analisadas)

    • Menor presença em outras regiões


4. Desigualdade no acesso a financiamento

 

    • Organizações lideradas por pessoas negras recebem:

       

        • 54% das verbas solicitadas

    • Outras organizações recebem:

       

        • 65%

Pequenas organizações lideradas por pessoas negras receberam apenas 23% em 2023


5. O custo invisível da rejeição

 

    • Cada proposta recusada não representa só perda financeira

    • Gera:

       

        • desgaste psicológico

        • perda de capacidade operacional

        • redução da persistência institucional

Falta de feedback agrava o problema


6. Barreiras estruturais no acesso a financiadores

 

    • Dificuldade de entrar em redes de financiamento

    • Fundações tendem a financiar sempre os mesmos projetos

    • Falta de estratégia clara para inclusão de novos atores


7. Lacuna entre discurso e prática das fundações

 

    • Fundações dizem querer diversidade e conexão

    • Mas:

       

        • não apresentam mecanismos concretos

        • não facilitam acesso a novos entrantes


8. Financiamento ainda é transacional, não estrutural

 

    • OSCs demandam:

       

        • apoio financeiro

        • apoio social (rede)

        • apoio humano (capacitação)

O modelo atual entrega majoritariamente dinheiro isolado


9. Impactos organizacionais profundos

 

    • Redução da confiança institucional

    • Sensação de sistema enviesado

    • Dificuldade de crescimento sustentável

Conclusão

O relatório desmonta uma ideia confortável: a de que o problema do terceiro setor está apenas na escassez de recursos. Os dados mostram que existe, na verdade, um problema estrutural de acesso, relacionamento e funcionamento do sistema de financiamento.

Organizações mais novas, especialmente aquelas fora dos círculos tradicionais de poder, enfrentam barreiras que vão muito além da qualidade dos seus projetos. A dificuldade de acesso a redes, a repetição dos mesmos beneficiários e a ausência de feedback criam um ambiente onde o esforço não necessariamente se traduz em resultado.

A leitura estratégica é clara: não basta preparar projetos melhores. O terceiro setor precisa evoluir para um modelo onde financiamento não seja apenas uma transação pontual, mas um processo contínuo de fortalecimento institucional. Sem isso, o sistema continuará premiando quem já está dentro — e limitando o potencial de transformação de quem mais precisa de oportunidade.

Relatório em Português
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