Em Genebra, executiva apontou pilares éticos e três principais barreiras que afetam a adoção da tecnologia por diferentes organizações.

Durante a cúpula AI for Good Global Summit 2024, realizada em Genebra, a responsável por Políticas Públicas de Inteligência Artificial para EMEA na Amazon Web Services (AWS), Sasha Rubel, detalhou como a tecnologia vem sendo aplicada no avanço dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (SDGs). Entre os exemplos citados estão projetos de agricultura vertical para combater a fome, mecanismos para reduzir viés de gênero em anúncios de emprego, mensuração do tempo de fala feminino na mídia, apoio à medicina personalizada e iniciativas de educação customizada desenvolvidas em parceria com a Universidade de Pádua. Rubel destacou ainda um levantamento indicando que cidadãos de diversos países preveem forte impacto da inteligência artificial na saúde, na educação, na igualdade de gênero e no combate à pobreza nos próximos cinco anos.
Para estruturar o desenvolvimento ético de soluções tecnológicas, a AWS opera por meio de quatro pilares: operacionalização de princípios éticos (como transparência, explicabilidade, prestação de contas e privacidade), promoção da diversidade com equipes compostas por filósofos, advogados e eticistas, fomento à educação e avanço da pesquisa com colaboração entre indústria, academia e sociedade civil. Rubel explicou que a consolidação da tecnologia enfrenta três gargalos centrais: a incerteza regulatória — que pode diminuir em até 48% os investimentos corporativos em três anos —, o déficit de competências digitais, relatado por 61% das empresas, e a disparidade de adoção entre grandes corporações (51%) e pequenas organizações (31%).

A defasagem de habilidades e a disparidade no acesso à inteligência artificial atingem diretamente o ritmo de inovação em entidades com menor capacidade de investimento. Como resposta ao desafio educacional apontado por trabalhadores que enfrentam restrições de tempo e orçamento, o programa AI Ready Commitment oferece mais de 80 cursos online focados na formação responsável sobre a tecnologia. Além de aproveitar capacitações acessíveis, a participação do terceiro setor em parcerias com o setor privado e instituições de ensino auxilia no alinhamento às diretrizes internacionais apoiadas pela ONU, OCDE e pelo código de conduta do G7, reduzindo entraves regulatórios na implementação de projetos sociais.
Relatório da ONU defende inclusão da sociedade civil na governança de saúde digital e IA
Estudo no Quênia e diretrizes da OMS reforçam a necessidade de mecanismos digitais de participação jovem nas políticas do setor.

A Relatora Especial da ONU sobre o Direito à Saúde, Dra. Tlaleng Mofokeng, lançou o relatório sobre Inovação Digital, Tecnologias e o Direito à Saúde, defendendo que os ambientes regulatórios digitais sejam moldados diretamente pelos usuários. No Quênia, país que aprovou o Digital Health Act No. 15 em 2023, um estudo liderado por jovens e apoiado pela iniciativa Young Experts: Tech for Health (YET4H) consultou 73 participantes de 15 condados. A pesquisa indicou que 96% dos entrevistados apoiam o estabelecimento de uma estrutura de participação cívica digital direcionada à juventude, destacando barreiras de acesso físico e comunicação ineficaz nos modelos tradicionais.
A governança inclusiva em saúde digital e inteligência artificial fundamenta-se na integração da participação pública em todas as etapas do processo de elaboração de políticas, do desenho técnico à implementação final. A Estratégia Global de Saúde Digital 2020-2025 da Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece que organismos internacionais e governos devem estruturar diretrizes conjuntas com a sociedade civil e comunidades afetadas. Esse modelo busca mitigar os impactos da inteligência artificial na tomada de decisão humana, salvaguardando direitos à privacidade de dados, liberdade de expressão e não discriminação por meio de canais de e-participation e programas integrados de alfabetização cívica e digital.

As diretrizes globais e a pesquisa de campo no Quênia evidenciam a oportunidade para que organizações da sociedade civil atuem na mediação e defesa de espaços formais de participação cívica digital. O terceiro setor pode impulsionar o desenvolvimento de plataformas participativas de menor custo e maior alcance, além de cobrar dos governos a inclusão de jovens e comunidades locais na definição de parâmetros éticos e regulatórios para o uso de inteligência artificial e tecnologias digitais na saúde pública.
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