Radar Estratégico do Terceiro Setor: governança, filantropia ativa, fundos internacionais e IA entram no centro da agenda das OSCs!

Roberto Santos
Roberto Santos Voluntary redator-de-conteudo

O Terceiro Setor vive um momento em que captar recursos já não é suficiente. A pauta agora combina governança, capacidade de incidência, diversificação de receitas, tecnologia e leitura estratégica de riscos. A edição de hoje reúne sinais relevantes para OSCs brasileiras: avanço do debate jurídico-regulatório no Brasil, maior pressão internacional por filantropia mais ativa, crescimento de novas formas de doação, oportunidade global de financiamento ambiental e entrada acelerada da inteligência artificial na operação das organizações.

Governança regulatória volta ao centro da agenda das OSCs

A Plataforma MROSC registrou a participação de signatárias no IV Direito do Terceiro Setor Law Summit, realizado de 1º a 3 de junho na sede da OAB-SP. O encontro discutiu temas atuais do campo jurídico do Terceiro Setor, com destaque para advocacy, regulação e ambientes de participação social. A presença da vice-presidenta do Confoco Nacional, Candice Araújo, reforçou a ideia de que a atuação das OSCs não pode ser apenas executora de projetos: precisa também incidir sobre normas, políticas públicas e pactuações institucionais.

O que mudou é que o debate regulatório deixa de ser uma pauta restrita a advogados e passa a ser parte da gestão estratégica das organizações. Para OSCs, isso significa acompanhar conselhos, conferências, audiências públicas, editais, termos de colaboração e marcos normativos com mais método. A organização que não entende o ambiente jurídico em que atua perde capacidade de defesa institucional, reduz sua força de negociação e fica mais vulnerável em parcerias com o poder público.

O que fazer agora: revisar estatuto, atas, políticas internas, prestação de contas e matriz de riscos regulatórios. A governança jurídica deve ser tratada como infraestrutura de sustentabilidade, não como providência emergencial quando surge um problema. Para quem atua com políticas públicas, o recado é direto: advocacy bem documentado também é estratégia de captação, legitimidade e proteção institucional.

Descrição da imagem da matéria 1: fotografia de reunião institucional com representantes de OSCs, advogados e gestores públicos em auditório ou mesa de debate, remetendo a governança, regulação e participação social.

MROSC

Fundação amplia desembolso e pressiona filantropia a responder à crise da sociedade civil

A Marguerite Casey Foundation anunciou que pretende doar pelo menos US$ 500 milhões ao longo de dez anos, com desembolso mínimo de US$ 50 milhões anuais. Segundo a cobertura da Associated Press, isso representa aumento de cerca de 50% em relação à média anterior da fundação e ocorre em um contexto de forte pressão financeira sobre organizações da sociedade civil nos Estados Unidos.

A relevância dessa notícia vai além do caso norte-americano. Ela aponta uma tendência: fundações começam a ser cobradas não apenas por preservar patrimônio, mas por aumentar desembolsos em momentos de crise social, política e financeira. Para OSCs brasileiras, isso importa porque muitos financiadores internacionais estão revendo prioridades, prazos, critérios de risco e formas de apoio institucional.

O que fazer agora: preparar projetos que demonstrem urgência, capacidade de execução e relevância pública. Em tempos de pressão sobre a sociedade civil, propostas genéricas perdem força. A OSC precisa mostrar por que sua atuação é necessária agora, qual risco social enfrenta, que evidências possui e como o recurso amplia capacidade institucional, e não apenas financia atividades isoladas.

Descrição da imagem da matéria 2: imagem de uma reunião entre financiadores e lideranças comunitárias, com gráficos de investimento social e documentos de planejamento sobre a mesa.

Marguerite Casey Foundation

Fundos assessorados por doadores crescem e mudam a lógica da captação

A Candid publicou em 8 de junho uma análise sobre o 2026 DAF Fundraising Report, destacando que a captação via donor-advised funds, conhecidos como DAFs, está crescendo mais rapidamente do que outras fontes de receita avaliadas no relatório. O estudo analisou dados de 54 organizações nacionais e aponta tendências relevantes de retenção, tamanho das doações e crescimento da arrecadação.

O que mudou é a consolidação de uma forma de doação mais planejada, intermediada e orientada por patrimônio. Embora os DAFs sejam mais comuns no mercado filantrópico norte-americano, a lógica por trás deles interessa diretamente às OSCs brasileiras: doadores de maior capacidade tendem a exigir mais clareza estratégica, governança, relatórios e continuidade de relacionamento antes de realizar aportes mais relevantes.

O que fazer agora: abandonar a captação episódica e estruturar uma régua de relacionamento com doadores. Isso inclui segmentar apoiadores, apresentar teses de impacto, oferecer relatórios periódicos, criar propostas de médio prazo e demonstrar capacidade de absorver recursos maiores. A tendência favorece organizações que tratam doação como relacionamento institucional, não como pedido pontual.

Descrição da imagem da matéria 3: pessoa analisando painel de doadores em notebook, com indicadores de retenção, recorrência e crescimento de receita filantrópica.

Candid

RELX Environmental Challenge recebe propostas até 12 de julho

O RELX Environmental Challenge 2026 está com inscrições abertas até 23h59 GMT de 12 de julho de 2026. A chamada apoia propostas inovadoras que ampliem o acesso sustentável à água segura, saneamento ou soluções ligadas à saúde dos oceanos. As regras oficiais indicam que a competição é aberta a indivíduos e organizações, incluindo setores sem fins lucrativos e com fins lucrativos.

A edição de 2026 prevê até dois prêmios de US$ 75 mil, um para a categoria água limpa e saneamento e outro para soluções relacionadas aos oceanos. Para OSCs brasileiras que atuam com comunidades vulneráveis, segurança hídrica, saneamento básico, educação ambiental, tecnologias sociais ou adaptação climática, é uma oportunidade objetiva de transformar experiência territorial em proposta internacional competitiva.

O que fazer agora: verificar aderência ao edital, organizar evidências do problema, descrever a solução de forma simples, apresentar indicadores de impacto e montar orçamento coerente. Projetos mais fortes serão aqueles que provarem viabilidade prática, benefício comunitário, capacidade de escala e conexão entre impacto ambiental e melhoria de vida da população.

RELX Environmental Challenge

Anthropic lança iniciativa de US$ 150 milhões para levar IA a organizações sem fins lucrativos

A Anthropic anunciou o Claude Corps, uma iniciativa filantrópica de US$ 150 milhões para inserir 1.000 bolsistas treinados em IA em cerca de 400 organizações sem fins lucrativos nos Estados Unidos. Segundo a Associated Press, cada organização anfitriã receberá também US$ 10 mil em grant e créditos gratuitos para uso do Claude. As inscrições para as bolsas estão abertas até 17 de julho.

O ponto estratégico não é apenas a ferramenta. A notícia mostra que a IA começa a entrar no Terceiro Setor como infraestrutura de trabalho: análise de dados, produção de conteúdo, atendimento, gestão de conhecimento, relatórios, triagem de demandas, captação e avaliação de impacto. A diferença entre organizações que apenas “testam IA” e organizações que governam o uso da IA tende a crescer rapidamente.

O que fazer agora: criar uma política mínima de uso de IA. A OSC deve definir o que pode e o que não pode ser inserido em ferramentas externas, como proteger dados sensíveis, quem valida conteúdos gerados por IA, quais processos podem ser automatizados e quais decisões exigem revisão humana. IA sem governança pode gerar ganho operacional imediato, mas também risco reputacional, jurídico e ético.

Anthropic

O que fazer agora

As OSCs devem tratar esta edição como um alerta de reposicionamento. A agenda do setor está se deslocando para organizações mais bem documentadas, juridicamente seguras, orientadas por dados, capazes de captar recursos internacionais e preparadas para incorporar tecnologia com responsabilidade.

A prioridade prática para os próximos dias é revisar três frentes: governança institucional, pipeline de captação e política de uso de tecnologia. Quem ainda atua apenas por demanda, sem calendário de editais, sem régua de relacionamento com doadores e sem documentação estratégica, tende a perder espaço para organizações menores, mas mais preparadas.

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