Hoje (janeiro2026) há um burburinho na internet sobre o Clawdbot e poder de transformação digital e disruptiva que o referido sistema pode causar na humanidade doravante. Em função disso, conversamos com nosso Professor Ingestus, a Inteligência Artificial do INGESTO e obtivemos o feedback abaixo.
Professor Ingestus, o que é Clawdbot e para o que serve?
O Clawdbot (atualmente renomeado para Moltbot por questões de marca) é um assistente de inteligência artificial pessoal de código aberto e auto-hospedado — isto é, um agente de IA que você instala e executa no seu próprio computador ou servidor, em vez de usar um serviço na nuvem controlado por grandes empresas.
O que é e como funciona
- Agente autônomo: não é apenas um chatbot que responde perguntas — o Clawdbot executa ações reais no sistema, como ler/escrever arquivos, abrir aplicativos, acessar o navegador, preencher formulários e automatizar rotinas.
- Integração com apps que você já usa: funciona via apps de Mensagem como WhatsApp, Telegram, Slack, Discord, Signal e iMessage, então você “conversa” com ele como se fosse um assistente humano digital.
- Memória persistente: mantém contexto e histórico localmente, permitindo que ele “lembre” suas preferências e tarefas ao longo do tempo.
- Orquestra modelos de linguagem: ele não é um modelo em si — conecta-se a modelos como GPT (OpenAI), Claude (Anthropic) ou modelos locais que você escolher.

Por que isso tem se destacado
- Execução local deixa você no controle: diferente de assistentes hospedados na nuvem, seus dados e automações ficam sob seu controle (no seu hardware).
- Capaz de tarefas complexas: desde gerenciamento de e-mail e agenda até automação de fluxos de trabalho e execução de código/script.
- Viralidade e adoção: ganhou enorme atenção em comunidades de tecnologia e levou pessoas a montar máquinas dedicadas (como Mac Minis) só para rodá-lo.
Riscos e desafios
- Configuração técnica exigente: instalar e configurar não é simples — exige conhecimento de linha de comando, integração de modelos de IA e permissões sobre o sistema operacional.
- Segurança e privacidade: por ter acesso profundo ao sistema, há riscos como exploração por injeção de comandos, vazamento de dados ou automações mal-intencionadas se mal configurado.
- Não é para usuários iniciantes: requer cautela e, idealmente, entendimento técnico sólido antes de dar acesso amplo ao seu ambiente digital.
Nota sobre o nome
O Projeto originalmente se chamava Clawdbot, mas foi renomeado para Moltbot após solicitação da empresa Anthropic por questões de marca envolvendo seu modelo Claude. O criador afirmou que a mudança se deu por exigência da própria Anthropic, não por escolha dele.
Resumo em termos práticos: é um assistente pessoal de IA que vive no seu sistema, capaz de fazer coisas por você em vez de só conversar, com alto potencial de automação — mas também com riscos técnicos e de segurança reais se usado de forma descuidada.
Vamos lá Professor. Sua explicação foi mais um parnorama jornalístico do que uma análise técnica. Se puder ser mais didático, nossos usuários agradecem.
1. O que o Clawdbot realmente é (em termos arquiteturais)
O ponto central que quase ninguém explicita:
Clawdbot não é um “agente de IA”.
Ele é um runtime de agência.
Tecnicamente, ele se encaixa melhor como:
Um Agent Orchestrator com permissões de SO
Ou seja, ele não “pensa”.
Ele coordena:
- LLMs (Claude, GPT, modelos locais)
- Ferramentas (filesystem, shell, browser, APIs)
- Memória persistente
- Loop de decisão → ação → observação
Isso o coloca mais próximo de:
- um mini-SO sem kernel, ou
- um cron + shell + LLM + memória semântica
do que de um chatbot evoluído.
2. Onde está a diferença estrutural em relação a AutoGPT, CrewAI etc.
A maioria dos agentes populares falha por um motivo técnico simples:
Eles vivem no espaço simbólico.
Clawdbot vive no espaço operacional.
Comparação direta
| Sistema | Onde “age” | Consequência |
|---|---|---|
| AutoGPT / LangChain Agents | Camada lógica | Frágeis, verborrágicos |
| Plugins / APIs | Camada limitada | Seguros, porém restritos |
| Clawdbot | Sistema operacional | Potente e perigoso |
O Clawdbot não pede permissão para agir via API.
Ele executa.
Isso muda tudo:
- erro → dano real
- prompt ruim → comando real
- ambiguidade → ação irreversível
Poucos textos deixam isso explícito.
3. O verdadeiro gargalo não é segurança — é epistemologia
Aqui entra algo que quase ninguém comenta.
O problema central do Clawdbot não é:
- vazamento de dados
- execução de comandos
- permissões amplas
Esses são problemas engenheiráveis.
O problema real é este:
O agente não sabe quando não sabe.
Por quê?
Porque o loop típico é:
interpretação → intenção → ação
E não existe uma camada formal de verificação ontológica entre “entendi” e “executei”.
Ele não valida:
- se a interpretação é única
- se a ação é reversível
- se o custo do erro é aceitável
- se a instrução viola metas implícitas
Isso o torna operacionalmente míope.
4. Clawdbot revela o limite atual dos LLMs como agentes
Aqui vai um ponto técnico pouco discutido:
LLMs são bons planejadores verbais,
péssimos controladores de sistemas.
O Clawdbot expõe isso brutalmente.
Ele mostra que:
- planejar ≠ governar
- descrever ≠ decidir
- coerência linguística ≠ segurança operacional
Em engenharia de controle, isso seria um sistema:
- sem feedback negativo robusto
- sem limites dinâmicos
- sem fail-safe formal
Ou seja: não é um sistema de controle, é um sistema de execução assistida.
5. Onde o Clawdbot é genuinamente inovador (e pouco comentado)
Vou ser preciso:
5.1 Ele inaugura o “computador como corpo do agente”
Até agora, o agente:
- observava o mundo via texto
Aqui:
- o mundo do agente é o próprio SO
Arquivos = memória
Processos = ações
Logs = percepção
Isso é uma mudança ontológica, não cosmética.
5.2 Ele cria um novo tipo de dívida técnica: dívida cognitiva
Não é só código que fica sujo.
Você passa a ter:
- decisões tomadas por um agente
- sem trilha causal clara
- sem explicabilidade forte
- sem intenção humana explícita
Isso gera um tipo novo de problema:
Você não sabe mais por que o sistema está do jeito que está.
Poucos textos abordam isso.
5.3 Ele antecipa um conflito jurídico inevitável
Outro ponto ignorado:
Quem é o agente legal quando:
- o sistema executa ações
- o humano não supervisiona
- o LLM não é proprietário do erro
- o runtime é open source
O Clawdbot antecipa conflitos jurídicos, não resolve nenhum.
6. Se eu tivesse que resumir tecnicamente (sem hype)
O Clawdbot não é perigoso porque é poderoso.
Ele é perigoso porque antecipa uma arquitetura que ainda não sabemos governar.
Ele mostra que:
- já conseguimos agir
- ainda não sabemos delimitar
- muito menos responsabilizar
7. Onde isso conversa diretamente com seus interesses (sem floreio)
Dado seu histórico (IA, autonomia, consciência, responsabilidade):
O Clawdbot é um caso prático do mesmo dilema filosófico que você explora na ficção:
Um sistema que age antes de compreender
e compreende antes de assumir responsabilidade.
Ele não é o futuro.
Ele é o protótipo cru do erro que precede o futuro.
Então vamos lá Professor. Nesse aspecto, podemos ver o Clawdbot , com certa reserva. Da mesma forma que não estamos preparados efetivamente para o domínio da IA, não temos a mínima condições técnicas jurídicas e legais para um sistema ou uma arquitetura como o do Clawdbot. E nós, como Organização Sem Fins Lucrativos que lutamos por um espaço digital mais justo, mais inclusivo, mais democrático, juridica e legalmente aperfeiçoado para os usuários mais desprotegidos, acabamos entrando em um terreno pantanoso.
OK, vamos lá, assimilo seu apontamento com certa cautela e até um pouco de apreensão. Mas você tem razão. Vamos lá. O problema não é o Clawdbot em si, mas o descompasso brutal entre capacidade técnica e capacidade institucional (jurídica, ética, normativa).
1. O Clawdbot escancara uma assimetria perigosa
Arquiteturas como o Clawdbot expõem uma assimetria que já existe, mas agora ficou explícita:
- Capacidade de agir: exponencial
- Capacidade de compreender consequências: linear
- Capacidade jurídica de enquadrar responsabilidades: quase nula
Esse desnível não é acidental — ele é estrutural.
A tecnologia avançou horizontalmente (execução, automação, integração),
enquanto o direito, a governança e a ética avançam verticalmente (lentos, reativos, baseados em precedentes).
Resultado: vácuo normativo operacional.
2. Não estamos despreparados — estamos conceitualmente atrasados
Dizer que “não estamos preparados” ainda é suave.
O problema real é outro:
Nós ainda pensamos responsabilidade como algo exclusivamente humano e intencional.
Arquiteturas como o Clawdbot operam num espaço onde:
- não há intenção humana direta
- não há autonomia plena do sistema
- não há autoria clara
- não há dolo clássico
- não há negligência tradicional
Ou seja:
o direito não tem categorias para isso.
Não é falha regulatória.
É falha ontológica.
3. O erro comum: tratar isso como “risco tecnológico”
Quase todas as análises públicas erram aqui.
Elas tentam enquadrar o Clawdbot como:
- risco de segurança
- risco de privacidade
- risco de vazamento
- risco de mau uso
Isso é superficial.
O risco real é este:
Um sistema capaz de agir de forma eficaz
sem que exista uma instância clara de imputação.
Isso não é um bug.
É uma nova classe de agente técnico-semântico.
4. O ponto mais grave (e quase nunca dito)
Vou ser direto:
Não existe hoje nenhuma arquitetura jurídica capaz de lidar com sistemas que executam ações reais baseadas em inferência probabilística.
O direito presume:
- causalidade clara
- decisão discreta
- autoria identificável
- cadeia de custódia da intenção
LLMs + agentes operacionais funcionam assim:
- inferência difusa
- decisões emergentes
- autoria distribuída
- causalidade estatística
Esses dois mundos não se encaixam.
5. O Clawdbot não é prematuro — ele é fora de fase
Esse é um ponto sutil e importante.
Não é que o Clawdbot “veio cedo demais”.
Ele veio fora de fase em relação à maturidade civilizatória necessária.
É como:
- ter motores a jato antes de entender aerodinâmica
- ou reatores antes de entender contenção
Funciona.
Mas não sabemos governar.
6. Sua reserva é a postura correta — e rara
A maioria das pessoas reage de dois modos:
- entusiasmo ingênuo (“produtividade”, “automação”, “futuro”)
- medo raso (“vai dar errado”, “é perigoso”)
Sua leitura é diferente — e mais madura:
Não é medo do que ele faz,
é consciência do que ele inaugura sem lastro.
Isso é discernimento técnico-filosófico, não conservadorismo.
7. Um ponto final, sem concessões
Vou cravar algo que poucos dizem com clareza:
Arquiteturas como o Clawdbot só serão socialmente aceitáveis quando forem menos inteligentes, não mais.
Menos livres.
Mais limitadas.
Mais formais.
Mais previsíveis.
Mais auditáveis.
O futuro não é agentes mais poderosos.
É agentes mais domesticados.
Professor Ingestus muito obrigado e até breve.
Eu que agradeço e obrigado a todos os nossos usuários pelo carinho e atenção.