Quando a confiança no Estado encolhe, sobra trabalho para quem fortalece instituições!

Análise · OCDE · Terceiro Setor

O Government at a Glance 2025, da OCDE, mede a saúde da governança em dezenas de países. Os números desenham um ambiente de baixa confiança e aperto fiscal — exatamente o terreno onde organizações de apoio institucional encontram sua razão de existir.

Fonte: OECD (2025) · Edição: 9ª · Recorte: Confiança nas instituições

A OCDE publica desde 2007 um retrato comparado de como os governos funcionam. A edição de 2025 abre com um diagnóstico incômodo: as instituições públicas operam sob pressão demográfica, ambiental e digital, e fazem isso com a confiança da população em níveis baixos e o caixa apertado.

Esse é um relatório sobre governos — não sobre o terceiro setor. Ele não menciona OSCs de apoio institucional. Mas é justamente aí que ele se torna útil para quem atua nesse campo: os dados descrevem o ambiente que torna esse trabalho necessário. A ponte entre os números e o papel da sociedade civil organizada é uma leitura, não uma conclusão do relatório.

01 — A confiança está baixa e desigual entre dimensões

O relatório não trata confiança como um número único. Ela se decompõe em percepções específicas: se as instituições agem no interesse público, se prestam contas, se dão voz às pessoas. Em quase todas, a maioria da população está do lado do ceticismo.

Percepções sobre as instituições públicas — % da população da OCDE que concorda (2023):

O problema raramente é a ausência de regras. É a distância entre o que está no papel e o que acontece na prática.

02 — O abismo entre a regra e a prática

Um dos achados mais reveladores não é sobre falta de normas, mas sobre implementação. Os países da OCDE têm, em média, boa parte das salvaguardas formais contra conflito de interesses. O que falta é colocá-las para funcionar.

Salvaguardas contra conflito de interesses (média OCDE):

A mesma lógica aparece na transparência: 66% do marco previsto, 64% implementado.

Esse descompasso é a linguagem nativa de quem trabalha com gestão institucional. Ter o estatuto, o certificado ou a previsão legal não é o mesmo que ter o processo rodando. É a diferença entre estar formalmente apto e estar operacionalmente capaz — distinção que define boa parte do trabalho de fortalecimento institucional.

03 — O cenário fiscal aperta o cerco

Por trás da queda de confiança há um pano de fundo material. O déficit fiscal médio dos países da OCDE saltou no período recente, reduzindo o espaço de manobra dos governos justamente quando mais se cobra resultado.

Déficit fiscal médio na OCDE (% do PIB):

Com menos recursos e mais demanda, governos passam a depender de eficiência, parcerias e capacidade de execução de terceiros. As próprias respostas catalogadas pela OCDE — revisões de gasto em 34 dos 35 países pesquisados, redesenho de serviços centrado no usuário — apontam para uma administração que precisa fazer mais com menos.

04 — O que as pessoas temem

Quando perguntadas sobre suas três maiores preocupações, as populações da OCDE colocam a economia no centro. Não é uma agenda abstrata de governança — é o custo de vida.

Principais preocupações (% que cita entre as três mais importantes, OCDE 2023):

A leitura para o terceiro setor

O relatório não prova que o terceiro setor é a solução. Ele descreve um Estado pressionado: confiança baixa, regras que não viram prática, caixa apertado e uma população ansiosa com a economia.

É nesse vazio entre o que o Estado deveria entregar e o que consegue executar que organizações de apoio institucional ganham relevância — ajudando outras entidades a sair da aptidão formal para a capacidade real de mobilizar recursos, gerir e cumprir exigências legais.

O dado é da OCDE. A ponte é nossa.
Fonte: OECD (2025), Government at a Glance 2025, OECD Publishing, Paris. https://doi.org/10.1787/0efd0bcd-en
Disponível sob licença Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY 4.0). Os dados acima foram reorganizados a partir do relatório; não reproduzem as figuras originais. As interpretações sobre o terceiro setor são de responsabilidade desta publicação e não representam posições oficiais da OCDE.

Relatório em Inglês
Página

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicou a edição 2025 do relatório Government at a Glance, uma das mais importantes referências internacionais sobre governança pública. O estudo reúne indicadores de dezenas de países e avalia temas como confiança nas instituições, transparência, participação social, digitalização, integridade, compras públicas, sustentabilidade e gestão governamental.

Os resultados mostram um cenário desafiador: governos enfrentam baixos níveis de confiança pública, restrições fiscais, envelhecimento populacional, mudanças climáticas e rápida transformação tecnológica. Ao mesmo tempo, cresce a pressão para que as instituições sejam mais eficientes, transparentes e capazes de gerar resultados concretos para a sociedade.

Embora o relatório tenha foco em governos, suas conclusões oferecem importantes lições para organizações da sociedade civil, fundações, institutos e entidades filantrópicas que dependem da confiança pública para cumprir suas missões.

Os três pilares da governança do futuro

Baseado no resumo executivo da OCDE.

            GOVERNANÇA DO FUTURO

┌─────────────┐
│ DIGNIDADE │
└──────┬──────┘


┌───────────────┼───────────────┐
│ │
┌───────▼───────┐ ┌────────▼────────┐
│ SEGURANÇA │ │ EFICIÊNCIA │
└───────────────┘ └─────────────────┘

Segundo a OCDE, governos precisarão concentrar esforços em três frentes simultâneas:

  • restaurar a dignidade dos cidadãos;
  • ampliar a sensação de segurança social e econômica;
  • aumentar a eficiência e produtividade institucional.

Esses três fatores aparecem como fundamentais para reconstruir a confiança social.

A crise global de confiança

Um dos dados mais relevantes do relatório é o baixo nível de confiança institucional observado em diversos países.

Confiança de que o governo resiste
à influência de grupos econômicos

SIM ██████████████ 30%
NÃO ██████████████████████████████████ 70%

Apenas cerca de 30% dos entrevistados acreditam que seus governos conseguem resistir adequadamente à influência de grandes interesses econômicos.

Outro dado preocupante:

Cidadãos que sentem que têm voz
nas decisões políticas

SIM ██████████████ 30%
NÃO ██████████████████████████████████ 70%

A maioria das pessoas não acredita que sua participação tenha impacto real nas decisões públicas.

Interpretação para OSCs

Para organizações sociais, isso representa uma oportunidade e uma responsabilidade.

Instituições do Terceiro Setor frequentemente atuam como pontes entre sociedade e governo. Quanto maior a crise de confiança, maior tende a ser a demanda por entidades que atuem com transparência, escuta social e participação cidadã.

A revolução dos serviços centrados no cidadão

A OCDE identificou um movimento crescente de governos reorganizando serviços públicos a partir da experiência do usuário.

Exemplo:

Em vez de exigir que uma pessoa procure vários órgãos para registrar o nascimento de um filho, governos estão criando plataformas integradas que concentram todos os serviços relacionados ao evento.

Dos 28 países analisados:

Países que adotam abordagem
centrada no usuário

SIM ████████████████████ 71%
NÃO ████████ 29%

O que isso significa para OSCs?

Organizações que oferecem serviços fragmentados tendem a perder relevância.

As entidades mais bem posicionadas serão aquelas que entregarem:

  • atendimento integrado;
  • navegação simples;
  • linguagem acessível;
  • jornadas completas para beneficiários.

O avanço da participação cidadã

Entre 1979 e 2023 a OCDE registrou:

716 processos deliberativos
participativos

148 ocorreram apenas
entre 2021 e 2023

O dado mostra crescimento acelerado de mecanismos como:

  • assembleias cidadãs;
  • consultas públicas;
  • fóruns deliberativos;
  • processos colaborativos.

Transformação digital ainda está longe do ideal

Apesar dos avanços tecnológicos, a OCDE conclui que governos ainda utilizam de forma limitada seus dados e plataformas digitais.

Disponibilidade média de
dados governamentais abertos

Disponível ██████████████ 47%
Indisponível ████████████████ 53%

Nos setores de educação, saúde e assistência social os índices são ainda menores.

Reflexão para OSCs

A transparência baseada em dados tende a se tornar um requisito básico para financiadores.

Organizações que conseguem demonstrar impacto por meio de indicadores, dashboards e evidências objetivas terão vantagem competitiva na captação de recursos.

A agenda climática exige governança

O capítulo especial do relatório trata da transição verde.

Um dos principais resultados:

Países OCDE com metas climáticas
previstas em lei

SIM ████████████████████ 62%
NÃO ████████████ 38%

Outro dado relevante:

Países com compras públicas verdes

SIM ████████████████████████████ 92%
NÃO ██ 8%

O que o Terceiro Setor deve aprender com o relatório

O relatório aponta cinco capacidades que serão decisivas para organizações sociais nos próximos anos:

  1. Governança sólida.
  2. Transparência baseada em evidências.
  3. Participação social efetiva.
  4. Uso estratégico de tecnologia e dados.
  5. Capacidade de demonstrar impacto.

Esses elementos aparecem repetidamente ao longo do estudo como fatores associados ao fortalecimento da confiança institucional.

Conclusão

O Government at a Glance 2025 mostra que a principal disputa institucional da próxima década não será apenas por recursos financeiros, mas por confiança. Governos, empresas e organizações sociais precisarão demonstrar legitimidade, transparência e capacidade de gerar resultados concretos.

Para o Terceiro Setor, a mensagem é clara: organizações que investirem em governança, prestação de contas, dados abertos e participação social estarão mais preparadas para captar recursos, influenciar políticas públicas e ampliar seu impacto.

Mais do que um relatório sobre governos, a publicação da OCDE funciona como um alerta para todas as instituições que desejam permanecer relevantes em uma sociedade cada vez mais exigente, conectada e orientada por evidências.

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